Um quase atleta olímpico chamado Jackie Stewart

Por Daniel Médici
Stewart, já campeão, ao lado do homem que descobriu seu talento para as corridas, Ken Tyrrell (19.ago.1970/AFP)
Stewart (à esq.) ao lado do homem que descobriu seu talento para as corridas, Ken Tyrrell (19.ago.1970/AFP)

Automobilismo e Jogos Olímpicos têm muito pouca coisa em comum, embora as corridas de carro tenham sido incluídas no calendário dos jogos de Paris, em 1900. Há poucos registros dessas competições, que incluíram corridas de veículos para dois, quatro e até seis passageiros e categorias como “táxi” e “caminhão”.

Por pouco, porém, os Jogos (pelo menos os de verão) e a Fórmula 1 não têm mais um ponto de contato: Jackie Stewart. O escocês é mais conhecido pelos seus três títulos mundiais como piloto, mas por muito pouco não obteve uma vaga para a Olimpíada de Roma, em 1960, no tiro ao prato.

A família Stewart era mais inclinada às corridas de carros. O irmão mais velho de Jackie, Jimmy, também pilotava e chegou a disputar o GP da Grã-Bretanha em 1953, em um Cooper da Ecurie Ecosse. Sofreu um acidente a 11 voltas do final. Depois, se feriu nas 24 Horas de Le Mans, e os pais renunciaram a qualquer estímulo para que seus filhos entrassem em uma pista novamente. Assim, Jackie escolheu o tiro ao alvo.

Stewart era uma das feras britânicas do esporte em 1960. Havia vencido a maioria dos campeonatos de tiro aos pratos que disputara naquele ano, em diferentes países. Na modalidade, os alvos eram lançados aleatoriamente de diferentes posições que podiam atingir cerca de 200 km/h, exigindo concentração e precisão do esportista.

Jackie viveu quase dez anos da sua vida imerso nesse esporte. Disléxico, abandonou a escola aos 15 anos. Com 14, havia começado a atirar. No dia do seu aniversário de 21 anos, Jackie competiria por uma das duas vagas britânicas nos Jogos Olímpicos daquele ano, na capital italiana.

“De 200 [tiros], eu fiquei de fora por um alvo”, declarou Stewart à Reuters, em 2012. “E era um placar cumulativo. Então, provavelmente, foi por um alvo em mil”, relembrou. “Acho que foi a maior decepção da minha vida esportiva.”

Apesar disso, o escocês diz que não foi isso que o levou a trocar de modalidade. Atirou até os 23 anos e admite não saber o que o afastou do esporte. Um conhecido da família o convenceu a testar alguns de seus carros em provas, e, numa delas, Ken Tyrrell percebeu seu talento atrás do volante. E o resto é história.

Segundo o próprio piloto, o tiro tem influência direta em seu sucesso no automobilismo.

“Quando eu cheguei lá [na F-1], eu já havia sentido o êxtase da vitória e a agonia da derrota com minha experiência olímpica. Eu comecei com uma grande vantagem sobre quase qualquer outro iniciante porque eu já havia experimentado a necessidade de foco total, de comprometimento, do ‘como eu posso fazer melhor e me superar?’.”

No caso de Stewart, competir sempre foi muito mais do que uma atividade física: “Eu era um desastre total na escola. Ninguém sabia sobre dislexia, então você era apenas estúpido, burro e idiota. O esporte salvou a minha vida”.